terça-feira, 27 outubro , 2026

A cemiterada e seus reflexos nos padrões de sepultamento no Brasil Colônia (1)

O costume de sepultar os mortos dentro das igrejas remonta aos primeiros séculos do Cristianismo. As pessoas faziam isto por acreditarem estar mais próximas do local sagrado e, conseqüentemente, de Deus. De acordo com a concepção católica, este local sagrado seria a igreja e, para atingir seus objetivos, os fiéis faziam uso de rituais para garantir a salvação de suas almas.

Dentro dessa cultura fúnebre que os brasileiros herdaram da colonização portuguesa, que ainda vigorava no Brasil do século 19, era importante investir no ritual funerário, na expectativa de alcançar as benesses do sagrado. Durante toda a sua existência, o católico preparava-se para a morte, deixando relatado em testamento suas estratégias de salvação para o pós-vida.

Para tanto, era imprescindível determinar o local de seu sepultamento, seu vestuário, velório, cortejo, números de missas ( eram 25 para a salvação da alma), doação de esmolas e pagamento de dívidas terrenas e celestiais . Esses cuidados tinham o objetivo de minimizar os pecados para que a passagem da alma para o “além” fosse segura. Competia às agremiações religiosas, confrarias e irmandades a responsabilidade sobre as organizações dos enterros.

Quem mais se beneficiava com essas agremiações era a igreja, que contava tanto com a devoção promovida, como com o sustento de seus cultos.
As agremiações exerciam, assim, papel de propagadores da religião, substituindo o clero e arcando com o ônus das atribuições religiosas. Só em São Paulo, existiam, no século 19, 46 confrarias e três ordens terceiras, entre elas a Ordem Terceira do Carmo, além de outras irmandades que, por serem tão numerosas, sobrepunham muitas vezes à autoridade eclesiástica.

A renda das associações, advinham de esmolas e donativos; mediante esses pagamentos tornava-se possível desfrutar dos bens espirituais, que incluíam assistência hospitalar e sepultura.
Os corpos eram enterrados em terrenos adjacentes às igrejas e irmandades; contudo, se a pessoa fosse ilustre, tinha seu jazigo nos soalhos da igreja, no altar-mor, ou ainda em pequenos altares laterais adquirido pelo próprio falecido.

Essa realidade começa a mudar no início do século 19 através de campanhas higienistas, uma novidade vinda da Europa.
Os médicos viam os sepultamentos dentro dos templos como algo altamente prejudicial à saúde dos vivos. Os representantes das províncias procuram, então, reordenar o espaço ocupado pelos mortos, estabelecendo assim uma nova geografia urbana da relação entre mortos e vivos.

A Ordem Régia de 1801, que determina a construção de cemitérios extra-muros, não encontrou, porém, força política de imediato para promover a reforma cemiteral. Em 1º de outubro de 1828, o governo decreta a primeira lei orgânica dos municípios, e que delega poderes de construir e administrar, juntamente com o clero, os cemitérios públicos. (Continua na edição de amanhã).

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